Neste início de longo feriado no Camboja, e, coincidentemente, feriado também no Brasil, resolvi dar ouvidos aos meus alunos da universidade e ir conhecer a montanha Bokor, na qual, supostamente, em alguns dias pode-se "encostar" nas nuvens.
O parque nacional na qual a dita montanha se localiza fica próximo a Kampot, cidadezinha que visitei em abril com o amigo australiano Colin. No dia anterior, como relatado em posts anteriores, fui até a empresa Capitol comprar a passagem, que custou US$ 6,25, para às 7h da manhã.
Acordei com bastante antecedência, às 5h15, para terminar de arrumar as malas, tomar banho, comer alguma coisa e descer para encontrar um motoqueiro que levasse a mim e a minha pesada mochila até lá. Saí daqui por volta de 6h30, o que se provou uma decisão acertadíssima. Isto porquê, apesar de encontrar rapidamente um senhor que me levou até lá, o mesmo pareceu entender prontamente aonde eu queria ir, mas na metade do caminho ele já não tinha tanta certeza, e tive que mostrar o mapa no celular para ele, pois apenas falar não estava adiantando. Como já relatei em ocasiões anteriores, este é um grande problema: há uma profusão de moto-taxis por aqui, mas muito pouca eficiência. Enfim, mesmo apesar da papagaiada, cheguei lá dez minutos antes do horário marcado, tempo que me proporcionou comprar um belo iced coffee antes de entrar na van (achei que seria um ônibus) que me levou até lá. Lá na "rodoviária" encontrei uma ex-aluna minha da universidade, que veio me cumprimentar e desejar boa viagem.
Pois bem, a van partiu com surpreendente pontualidade, menos de 5 minutos após o horário marcado. Tanto que eu estava esperando chegar em Kampot por volta do meio-dia, e acabamos chegando pouco após as 10h30, mesmo com uma parada no caminho para banheiro e alimentação. A maior velocidade, no entanto, foi contrabalanceada por pouco espaço para as pernas e uma senhora tagarela que veio falando praticamente durante todo o trajeto com um familiar dela.
Já em Kampot, após desviar a manada de tuk-tuks e motos oferecidas, olhei no mapa e perguntei ao motoqueiro onde ficava a Sebana Guesthouse, na qual eu havia efetuado reserva no dia anterior pela internet. O lugar ficava a duas quadras de lá, o que me possibilitou ir carregando tranquilamente minha pesada bagagem.
Infelizmente, o check-in começava apenas após as 14h, então deixei a maioria das minhas coisas lá e rumei ao mercado central da cidade, onde fui almoçar. Dei uma boa circulada por lá (que é um inferno para pessoas altas - não é o meu caso - por ter um teto extremamente baixo) até encontrar um lugar para comer (havia três opções de noodles, e era só). Acabei comendo duas porções (US$ 0,75 cada), pois eram bem frugais. Quando voltei o sol já estava a pino, e cheguei pingando novamente na guesthouse.
Lá, os donos franceses me informaram sobre os pontos turísticos, como ir até eles, etc. e me disseram que poderiam conseguir uma scooter para eu me locomover sem ter que contratar um guia, como eu havia feito em Battambang. Cerca de quinze minutos depois, ela estava lá. O mais difícil foi arrumar um capacete, pois todos eram muito pequenos, mas eventualmente consegui um do meu tamanho. Enfim, fui colocar gasolina na moto e um dos donos da guesthouse me mostrou qual era a saída que eu deveria pegar para ir até as opções turísticas mais rápidas, uma vez que eu teria somente de cinco a seis horas para vê-las. No caminho, a moto começou a engasgar e tive que gritar para que ele retornasse e me ajudasse. Em princípio pensamos que fosse a bateria da moto, mas resultou que, pela primeira vez na vida, eu presenciei um veículo interromper totalmente suas funções devido à falta de combustível. É incrível como alugam uma moto com praticamente zero gasolina, mas pelo menos acabei aprendendo como dar carga na bateria de uma moto.
O francês ligou para um contato, que veio examinar a moto e depois ligou para um terceiro trazer quatro litros de gasolina para eu completar o tanque. Paguei US$ 3,50, me despedi e finalmente peguei a estrada.
Meu plano era visitar uma ou mais das cavernas no caminho para Kep, uma cidadezinha ainda menor que também visitei com Colin e de onde fomos para a Rabbit Island. O problema é que, mesmo parando várias vezes para consultar o Google Maps, Lonely Planet e um guia que peguei na guesthouse, acabei não encontrando caverna alguma.
Percebi que já havia andado demais quando cheguei praticamente na entrada de Kep, sinalizada pelo monumento de um cavalo branco. Parei ali na rotatória, tirei uma foto e dei meia volta.
Resolvi então procurar uma fazenda na qual é plantada a famosa pimenta verde de Kampot, outrora ingrediente indispensável nos melhores restaurantes franceses. Enveredei por umas estradinhas de chão, que era onde meu mapa indicava ir. No caminho, paisagens bucólicas verdíssimas agraciaram minha visão. Bem antes de chegar lá, me deparei com um pagoda e não resisti. Logo ao entrar, me deparei com uma cena bem inusitada, típica do Camboja. Uma belíssima estátua de um cavalo branco estava tombada no chão, sabe lá Deus (ou Buda) a quanto tempo. Estacionei a moto, e um simpático cambojano veio puxar papo comigo, perguntando se eu precisava de condução ou guia. Agradeci e continuei meu passeio. Ali perto havia um pavilhãozinho com um gracioso altar, ornado com estátuas budistas. O lugar continha ainda estantes com livros, pinturas, e uns embrulhos escuros que pareciam oferendas. O complexo ficava em uma área afastada, de chão batido e muitas árvores. Ali nas redondezas encontrei um bumbo, tambor, ou gongo (não sei exatamente o termo técnico). O lugar era repleto de estátuas, uma variedade maior que a média dos templos aqui de Phnom Penh. Terminei de explorar o local e quando segui caminho o rapaz que me recepcionou estava perto da minha moto. Me despedi e peguei a estrada novamente.
Um pouco ao lado do pagoda onde eu estava, encontrei um prédio vermelho de arquitetura Khmer. Após fazer algumas fotos, dei partida na scooter novamente e continuei o caminho de volta à Kampot. Pouco mais de cinco minutos depois, me deparei com a entrada de um novo pagoda, com estátuas de elefantes à frente. O lugar estava decorado com bandeirinhas semelhantes a que usamos no Brasil quando temos festa junina. Não havia turistas por lá. O cenário, mais uma vez, era bem bucólico: chão batido, muito pó e árvores por todo lugar. O templo principal era bem antigo, e as tradicionais estátuas de pedra e bronze estavam espalhadas em todas as direções. O que mais se via, no entanto, eram stupas. Após desviar de uns montes de lixo que estavam próximos ao templo, entrei neste, que tinha chão de azulejo, mas belíssimas pinturas no teto e paredes, com divindades e estórias do "folclore" budista e cambojano. Havia também um altar com imagens budistas, assim como em toda igreja católica há as imagens daquela religião. Uma das pinturas me chamou a atenção: duas divindades parecem estar prestando algum tipo de ajuda a um homem verde, que parece ser alguém de uma casta mais baixa. Ao sair do templo, mais um curioso detalhe: na base do corrimão que ladeia a escadaria, havia duas estátuas. Uma delas, no entanto, estava sem cabeça. Me pergunto como a mesma foi decapitada e porque, caso tenha sido obra de um ser humano. Próximas à saída do templo, estavam três stupas. Uma delas particularmente bonita e diferente, com azulejos de cor verde-esmeralda. Sua beleza parece ter atraído uma vaca, que pastava ao lado.
Como podem ver nas fotos, a esta altura o céu já estava bem fechado, então segui viagem em direção a fazenda de pimentas. No caminho começou a chover. Pouco depois da água desabar, eu estava em uma estrada de chão e convenientemente passei por um tipo de vendinha que ficava em uma casa de madeira bem rústica. Parei a moto e me abriguei debaixo do telhado. A dona da vendinha me convidou a sentar em uma cadeira que tinha lá, junto com uma mesa de plástico. Havia mais um morador local. Tentei perguntar a eles se estava no caminho certo para a fazenda, mas eles não me entenderam. Eu também não os entendi quando eles tentaram se comunicar comigo. Uma verdadeira torre de Babel. Pouco depois mais moradores locais chegaram para se proteger do temporal, e o telhadinho em pouco tempo mais parecia um metrô na hora do rush.
Fiquei esperando lá por volta de meia hora. A chuva não havia parado, somente amainado. Coloquei a capa de chuva que estrategicamente havia levado comigo na mochila e continuei a jornada. A estrada de chão havia virado estrada de lama a esta altura e tive que andar bem no meio desta sempre que possível, pois havia vários pontos de charco. Enfim acabei chegando a um dos pontos turísticos da região, chamado de lago secreto. Mesmo com toda a chuva e tempo fechado, havia um número considerável de locais tomando banho lá e se divertindo na água.
Eu, no entanto, já tinha água suficiente em mim, mesmo com a capa de chuva. Em frente ao lago, havia duas tendinhas que vendiam comida. Me abriguei na segunda delas e me ofereceram um lugar para sentar, ao lado de uma mulher com um bebê. Vi que eles estavam comendo ovos cozidos com ervas e uma espécie de salsicha colorida. Já era quase 15h, e eu estava com fome, então acabei pegando ambos os pratos e uma caneca de caldo de cana, que é bem popular na região, sendo encontrado também em Phnom Penh. Após terminar de comer, esperei ainda mais uma meia hora até a chuva não estar mais tão perigosa para dirigir e aí continuei a jornada.
Passei por umas áreas remotas, com muitas plantações e poucas pessoas. Uns vinte minutos depois cheguei na tão esperada plantação de pimenta, que abriga também um resort. Devido à chuva, não havia qualquer tipo de segurança ou alguém vigiando e pude entrar na plantação e tirar fotos tranquilamente, além de colher um galho de pimenta para trazer de volta. A plantação era bem interessante, com umas torres de tijolos ao redor das quais as pimentas se prendem e desenvolvem. O lugar era bem grande, e havia milhares destas torres em uma ampla área. Há uns duzentos metros dali, podiam divisar-se as construções do resort, que não era nada de outro mundo.
De acordo com o mapa, eu não precisava dar meia-volta para retornar a Kampot. Fui então por um caminho alternativo e acabei chegando a um outro pagoda. A esta altura, no entanto, a chuva estava fortíssima novamente e não pude andar livremente por lá, tendo oportunidade de fazer algumas poucas fotos. A primeira delas mostra uma escultura em pedra que lembra um sino. A segunda mostra as poucas estruturas que havia por lá e um açudezinho que estava sendo preenchido até a bica pela forte tempestade. Esta última foto foi tirada debaixo de um prédiozinho de pedra no qual entrei com a moto para me abrigar. Havia alguns monges e moradores locais ali, que eu cumprimentei. Alguns deles se aproximaram curiosos, aparentando não estarem muito acostumados com a presença de turistas por ali, principalmente por este ser um pagoda mais retirado do circuito turístico.
Mais de vinte minutos de espera depois, a chuva amainou novamente, e consegui pegar a estrada novamente e voltar para Kampot. Já na guesthouse, pedi que lavassem minhas roupas e meus tênis, que estavam emporcalhados pelo tanto de lama que eu havia presenciado anteriormente no dia.
De banho tomado, roupas limpas e mais descansado, saí para jantar. Meu plano inicial era ir comer costeletas de porco no local mais famoso da cidade, mas ele estava fechado neste e no próximo dia. Acabei chegando, após enfrentar ruas muito escuras (escuras demais para uma cidade que sobrevive do turismo), ao Rikitikitavi, um restaurante que oferecia happy hour de drinks das 18h às 20h. Acabei provando um Cosmopolitan (dois na verdade), acompanhados de uma porção de amendoins cortesia da casa. Para o jantar, degustei um Saraman, que nada mais era que um curry de carne bovina. Saboroso, mas nada espetacular. Durante a refeição, começou a chover forte novamente. Um senhor canadense que estava no bar ao lado da mesa na qual eu estava puxou papo, e pude matar alguns minutos desta forma. Uns quinze minutos depois a chuva estava mais fraca, então me despedi a desci para ir embora. Coloquei a capa de chuva e por volta de 19h, estava de volta à guesthouse. No dia seguinte, eu iria para a parte mais esperada da viagem, a montanha Bokor.
























































































